Olhar sobre as montanhas

Prólogo

Todos falavam que seria um verão chuvoso. Eu simplesmente não conseguia acreditar naquilo pois a chuva sempre foi algo que minha agradou. Naquela semana um telefonema havia me deixado animado. Minha mãe, que morava nos Estados Unidos, resolveu ligar pra casa e conversar um pouco com todo mundo. Ela me contou um pouco sobre a vida dela na América, coisa que eu geralmente sempre tinha muita curiosodade em saber.

Eu morava com minha irmã Caçula e meu pai. A minha outra irmã, a do meio, havia conseguido um trabalho como modelo fotográfica em algum desses países da Ásia e passava lá a maior parte do ano. Estava em meados de dezembro quando recebi aquela ligação da mãe.

Como fonte de renda, eu trabalhava na assessoria de comunicação da Secretaria de Estado de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior do Estado de Minas Gerais. Era Auxiliar Administrativo, cargo que acabei exercendo por quase sete anos e três Governadores, Os senhores Aécio Neves da Cunha, Antônio Anastasia e Alberto Pinto Coelho. À noite, pouco para complementar a renda e muito porque eu era apaixonado, trabalhava dando aulas de jiu-jitsu, arte marcial que até então eu praticava desde os meus doze anos.

A minha vidinha era normal, eu acordava, seguia a rotina e dormia; acorda no outro dia e repetia. Aos finais de semana eu geralmente ia pra casa dos meus grandes amigos Eduardo e Flavio Viana. Passavamos todo o fim de semana a ensaiar musicas com nossa bandinha de rock. Quando algo muito excitande acontecia, era geralmente um novo jogo de playstation que havia sido lançado. Enfim, dava na mesma. O fato é que eu já estava cansado daquilo e não fazia ideia de  que algo estava prestes a acontecer que abalaria as estruturas do meu mundo nas suas mais sólidas fundações.

Os fatos que narro a seguir culminaram para uma série de eventos que mudaria o curso de toda minha vida, uma experiencia que muitos buscam mas poucos tem o privilégio de contemplar: encontrar-se a si mesmo e descobrir do que você é capaz quando já está prestes a desistir.

Capítulo 1 – A primeira curva da estrada

Acordei as cinco da manhã de uma segunda feira. Meu pai batia à porta do meu quarto com tanta violência que eu, de um pulo, levantei e fui ver o que estava acontecendo. – Filho – disse ele. – Preciso que me leve ao Hospital com urgência, não estou aguentando mais.

-São as dores de novo pai? Perguntei em um tom preocupado.

– Sim, mas dessa vez é sério, nunca senti nada igual. Disse ele enquanto contorcia-se de dor no chão, perto da porta do meu quarto.

Peguei minha carteira, a carteira dele, o celular e a chave do carro. Desci correndo e liguei a velha Saveiro branca que tinhamos na garagem. – Aguenta aí pai – eu dizia. – vai dar tudo certo, não se preocupe.

Eu dirigia em uma velocidade alta, porém que não  causasse suspeitas  a qualquer viatura policial que por ventura estivesse a fazer sua rotineira ronda. Já sabia aquele caminho de cor, pois meu tinha tido essas dores há um tempo, e sempre eu acabava por levá-lo nessa emergência,  e depois de uma bateria de exames, os incompetentes médicos sempre davam o mesmo diagnóstico: Gastrite.

Porém, dessa vez era mais sério do que uma simples gastrite. Parecia que meu velho iria se explodir por dentro de tanto que ele gritava e se contorcia. Eu, por minha vez, sentia-me tão frustrado de não poder fazer nada para ajudá-lo.

Naquele dia, eu faltei ao meu trabalho e minha irmã também não pode assistir sua aula, pois geralmente era meu pai quem a levava. Foi um dia duro no hospital. Entre um exame e outro, eless o colocavam em macas e eu segurava os seus documentos e comecei a dar entrada em sua papelada para o seguro de saúde e medicamentos.

No final do dia, eu exausto, recebi da médica a notícia que meu pai tinha um sério problema de pedra na vesícula. O caso dele era grave e tinha que ser acompanhado muito de perto. Eles tentavam trata-lo com medicamentos até liberar o quarto para que ele pudesse ser internado. Foram longas horas até que, por volta das 3 da manhã, colocaram ele em um quarto. A enfermeira era muito simpática e me ajudou muito a cuidar dele.

Apesar de querer ficar ali e cuidar do meu pai, eu sabia que o dever me chamava, e assim começou uma rotina muito dura. Eu fui pra casa e acordei minha irmã, preparei o café da manhã e a levei pra aula. Saindo de lá, fui direto para o meu trabalho, que não era relativamente longe do hospital. Trabalhei naquele dia com muito sono e quando foi 4:40 da tarde, sai direto para buscar minha irmã da aula e a levei para nossa casa. Fiz uma janta pra ela e troquei de roupa para descer novamente para o hospital, de onde fui sair as duas da manhã.

Aquela rotina se estabelceu até o terceiro dia, quando a enfermeira do hospital ligou no meu celular e perguntou se eu podia passar lá pois o doutor queria conversar comigo sobre o meu pai.

Chegando ao hospital, descobri que o douto era minha tia, irmã do meu pai, cirurgiã. Ela estava acompanhada do meu padrinho, também irmão do papai e médico anestesista. Eles sentaram comigo na recepção do quarto dele e me contaram que o caso dele era gravíssimo e que ele teria que fazer uma operação de emergência, pois a pedra na vesícula dele havia causado um infecção que estava prestes a se espalhar para o resto do corpo.

Naquele ponto, eu não sabia o que pensar. Ao olhar pra ele naquela cama, um cara tão jovem e sempre cheio de vida, meu mundo foi ao chão. Não sabia o que pensar. Não sabia o que fazer ou como agir.

Ao mesmo tempo que tudo acontecia, minha irmã que estava no exterior me ligava o tempo todo para saber notícias mas eu tinha que mentir pra ela falando que estava tudo bem, que ele ja estava se recuperando, quando na verdade estavam preparando para realizar uma operação demorada e delicada nele.

Depois da operação o quadro dele foi estabilizado e dormia sobre observação na UTI do hospital. Já chegavam a seis dias desde que ele havia dado entrada naquele lugar e ainda não tinham concertado o seu corpo. Eu tava sob pressão.

Me lembro que por ser final do ano, tinha que entregar vários relatórios anuais sobre diversos assusntos relacionados à secretaria e também, por ser da comunicação, era um dos responsaveis pela organização do seminário de resultados e confraternização de final do nao.

Cara, eu não tava com cabeça para aquilo e não tinha mais ninguém que podia me ajudar ali. Todos muito ocupados com o seu próprio desempenho para apresentar resultados no seminário e meu pai morrendo no hospital. – Que mundo F*** da P**** – Eu pensava o tempo todo. O stress se construía sobre mim com tanta violência que eu não consegui agarrá-lo e processar o que estava passando. As vezes, entre um metro e outro, ou caminhando na rua em direção ao hospital, minha mente se esvaziava de pensamento e meus pés me levavam a lugares que eu não havia planejado estar. Não conseguia me alimentar, não conseguia dormir. Só pensava em uma maneira de tirar meu pai daquela situação. Dois dias depois da cirurgia, minha irmã finalmente entrou em férias escolares e aquele foi um peso a menos para suportar. Não que eu estivesse encomodado com tudo aquilo, no estado que me encontrava, já executava tudo no modo automático. Havia fechado minha mente e nem tinha ainda me dado conta.

Quando ela entrou de férias e eu consegui um alívio, consegui também um pouco mais te tempo no meu dia. Cheguei no hospital as 5 da tarde naquele dia, ainda estava claro e a enfermeira veio andando com uma maca e meu pai, fraco, parecendo muito fragil, mas acordado.

Ele não conseguia falar, mas me lembro que apertou minha mão com o resto de força que ainda lhe restava antes da enfermeira começar a colocá-lo na cama.

Nos dias seguintes, a sua recuperação foi relativamente rápida, e no dia 24 de dezembro ele recebeu alta. Ao chegar em casa, subimos a escada juntos e com muita dificuldade, pois ele ainda se recuperava. Mas pelo seu rosto eu podia ver que um pouquinho de sua felicidade estava voltando e naquela noite, depois de toda a pressão que havia passado naqueles quase 15 dias, eu pude pensar em mim.

 

Capítulo 2 – Toda jornada jornada começa com o primeiro passo

A noite deitado em minha cama, fechei meus olhos e tudo aquilo que havia passado nos ultimos dias veio à tona. Desabei a chorar e me senti a pessoa mais miserável do mundo. Naqueles ultimos dias de tormento, eu via as pessoas sorrirem e me dava ódio. Não de sua felicidade; mas o sentimento era de que o mundo todo deveria saber de meus problemas e tinham que se compadecer com minha causa. Achava uma injustiça enfrentar tudo aquilo sozinho e queria me afastar das pessoas. Eu sabia que estava deprimido.

Mesmo com meu pai em casa, não consegui mais me alimentar ou dormir. Passei os próximos dias, inclusive o natal, sentado a contemplar a minha janela.

O ano ia acabando e com ele, as minhas esperanças de que as coisas melhorariam. Meu pai ligou para o meu amigo, Eduardo e meu primo André para que fossem pra nossa casa celebrar com a gente a virada do ano, mas eu consegui ser a pessoa mais desagradável do planeta enquanto eles tentavam me agradar de todas as maneiras, que eu em meu bom estado, sentiria-me contente e entrertido.

Naquela noite, eu decidi que não queria mais ficar ali. Eu ia sair. Eu iria em algum lugar. Sempre fui sensato, mesmo em meus momentos de depressão e aprendi a não jogar tudo pro alto, então pensei em um plano que pudesse me tirar dali: eu ia viajar. Sem rumo. Chamei meus dois parceiros no quarto e dei a notícia pra eles de que iria sumir por um tempo. Sem telefonemas, sem mensagens no Orkut.

Acordei as quatro da manhã de uma sexta-feira e peguei minha mochila. Soquei dez pares de cuecas e dez pares de meia, uma lanterna, uma faca, barrinhas de cereal e um mapa do Brasil. Passei no quarto do meu pai e abri a porta devagar para não acordá-lo. Eu não sabia o que poderia acontecer comigo nos próximos dias então me aproximei e apertei sua mão.

 

Ao chegar na rodoviária de belo horizonte, parei para contemplar todas as pessoas que seguiam com seus afazerers naquela manhã fria do centro da cidade. Alguns bebados buscavam trocados entre os transeuntes. Meninos buscavam nas lixeiras algo pra comer, homens de ternos passavam apressados falando no celular em seus carros do ano. A mesma merda de sempre, porém pela primeira vez eu me via excluído dela, eu sentia nojo daquilo tudo, queria sair dali mais rápido que eu pudesse, e ao entrar na rodoviária, olhei para o painel de destinos dos onibus e o primeiro que os olhos bateram foi Campo Grande, cidade capital do Estado do Mato Grosso do Sul. A passagem foi cara e eu ainda teria que esperar algumas horas, então procurei um bom lugar para escorar-me e apensas esperei.

Em algum ponto de minha espera, acabei pegando no sono e fui acordado por vários murmúrios e alguns gritos ao longe, dentro do terminal principal. Me levantei e fui ver o que estava acontecendo. Aparentemente, um senhor idoso teve uma parada cardiorespiratória. Os seguranças da rodoviária tentavam socorre-lo enquanto o resgate chegava, mas eu já sabia do inevitável. Naquele ano, no mes de outubro, havia me formado como socorrista de primeiros socorros pelo Corpo de Bombeiros de MG, e lembro-me que o capitão que comandava o curso comentou que na rua, quando a vítima entra em para cardio-respiratória, mesmo com resgate imediato, tem suas chances de sobrevivência reduzidas a 5%.

Ele não tinha ninguém por perto. Nenhum parente ou amigo. Partiu sozinho naquele chão frio da rodoviária, onde diariamente transitam milhares de pessoas. Coloquei-me a imaginar se ele estava indo pra algum lugar perto de sua família. De seus filhos, esposa ou netos?! Nunca irei saber. Mais um cara que deixou a vida para entrar na estatística daquela metrópole fria.

 

 

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