A bola na janela e a velha infância

A bola bateu com força na janela. Quebrou a vidraça, sujou a cortina e entrou como um balaço dentro de casa. Foi encontrar seu destino na mobília, onde ornava um triste busto de Reia Sílvia. O busto se partiu em duas metades que caíram ao chão, derrubando consigo também algumas taças e garrafas. O estrago fora grande, e grande também fora a cólera do homem que vinha correndo e amaldiçoando o autor daquele barulho infernal. Logo ao entrar na sala, deu de cara com a causadora de toda aquela balbúrdia: A bola.

Era uma boa de couro, branca, simples, pouco murcha. Estava encardida por resultado dos milhares de pontapés recebidos ao longo das tardes ensolaradas daquela pacífica rua.

O velho, tomado pela raiva, quase não raciocinava mais, Só pensava em vingança. Pensava em como destruir e se vingar daquelas malditas crianças do pior jeito possível. Como a juventude pode ser tão tola e não se preocupar com os poemas problemas tantos que enchem o mundo? Só pensavam em si divertir.

Achou uma faca grande na cozinha e já se preparava para furar a bola. Olhou-a com calma, com frieza, queria saborear o momento. Virou para si a bola, e pode notar que em um de seus gomos haviam gravadas as iniciais que provavelmente identificavam a propriedade da criança dona da bola: GM. O que será que signficavam aquelas iniciais?

Sem ao menos piscar, ele não teve reação. Viajou uns 50 anos no passado e a primeira coisa que viu ao chegar lá foi a noite de natal de 1957. Ao abrir o presente na árvore, sua alegria foi grande ao ver pela primeira vez aquela bola de couro. Sua mãe, como já sabia que brincaria de imediato com a bola, escreveu em um dos gomos as iniciais do menino: GM, de Guilherme de Medeiros.

Foram muitos anos de felicidade com aquela velha boa. Quantas copas do mundo ele já havia conquistado? Em seus pés, o Brasil foi tri, foi tetra, penta, hexa e hepta, e ele foi o melhor jogador do mundo. Tampo do dedão? Tão descartáveis quanto guardanapos de mesa.

Passou das lembranças da bola para as outras brincadeiras e a enorme turma do bairro. Subir em árvores que eram grandes demais para eles. Eram desbravadores, piratas, exploradores, bandidos, cowboys, índios, astronautas, policiais, bombeiros. Não havia nada que os impedissem de ter uma boa aventura. Problemas? eles resolviam todos. Achavam tesouros, apagavam incêndios, Matavam os vilões, resgatavam as mocinhas, e se preocupavam muito com todos os problemas do mundo.

Lembrou-se de Cecília e de seu doce encanto. Nem sabia o que era o amor, não entendia o que sentia, só sabia que seu coração batia mais forte ao vê-la se aproximar e seu estômago brincava de fazer cócegas. Ao lembrar de Cecília, sua primeira paixão, lembrou do cheiro de Dama-da-noite que vinha do quintal de Dona Rosa, a bondosa senhora que vivia com seus gatos no fim da rua.

Sua infância passou diante dos olhos como um belo sonho e pensou em quantas janelas ele já havia quebrado com a sua bola branca de couro. Quantas travessuras, quantas aventuras, quanta diversão. Maldade não havia; apenas a pureza infantil de ser um menino feliz.

Quando voltou a si, olhando a bola em sua mão percebeu que a raiva que sentia não era sem razão: era por inveja daquelas crianças. Era a vontade de sentir de novo aquela alegria intensa que os pequenos da rua sentiam. Ao sair na rua com a bola nas mãos, os meninos e meninas sentiram medo e correram no começo, mas ao perceber que o velho fazia gestos de que ia entregar a bola, aos poucos foram se aproximando e puderam notar no seu olhar uma alegria ímpar, dessas que não se vê em todos os velhos que moram sozinhos.

Aquele senhor, daquele dia em diante, passava as tardes com aqueles meninos, observando-os no jogo de futebol e ensinando-os todas as brincadeiras das quais ainda se lembrava.

Daquele dia em diante, percebeu que os problemas do mundo foram feitos para adultos, e não para crianças e vellhos felizes. =)

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