Arquivo para novembro \13\UTC 2010

Roses

Imagem retirada do blog (ensaio sobre a loucura)

Era um dia perfeito naquele outono frio. O céu tão cinza quanto poderia ser. As folhas estavam vermelhas nas copas das árvores e a cada rajada de vento gélido que batia em meu rosto e me fazia sentir vivo, levava-as em direção ao verde rico da grama molhada, formando um contraste digno de um cenário tão bonito. Naquela mesma grama, repousavam lápides antigas e acinzentadas que zelavam pelo sono de dezenas de heróis de guerra. Se ao menos seus olhos dos dias antigos pudessem ver que sua causa de luta fora em vão, lamentar-se-iam em arrependimento eterno.

Ali eu me encontrava, sentado; contemplando os corvos em seus ninhos e deixando a paz invadir-me por completo. Em um segundo olhava para cima e no outro, quando voltei a si, me deparei com ela vindo em minha direção, cortando como faca a monotonia do ambiente em que nos encontrávamos. Ela definitivamente não combinava com nada naquele cenário gótico, mas eu também não. Seus trajes não eram exuberantes tampouco luxuosos, mas carregava em sua face de anjo uma nobreza digna dos antigos lordes de outrora. Sua bochecha rosada, fosse pelo frio ou apenas por seu semblante, me tiravam o fôlego a cada vez que meus olhos encontravam-na. Carregava um sorriso decidido que caía tão bem a ela quanto a velha capela no fim do cemitério caía ao conjunto daquela paisagem vespertina. Por uma estranha razão, nos conhecíamos muito bem e decidimos caminhar juntos naquela tarde fria.

Conversamos muito sobre nada e falamos muito pouco sobre o que realmente interessava. Talvez porque soubéssemos que palavras não nos eram necessárias àquela altura; nossos olhos tinham sua própria linguagem e sabíamos muito bem o que queríamos. Como um relâmpago no céu, ela foi-se embora tão rápido quanto veio, mas foi intensa em sua passagem, deixando-me sem fôlego e sem condições de traduzir tudo aquilo.

Era um dia perfeito naquele outono frio.

Espero que me enterrem naquele velho cemitério de pedras rústicas ao lado de meus heróis anônimos, pois como eles eu vivi meus dias de lutas e glórias e conheci o amor de uma bela dama.

A vida nos leva a caminhos estranhos, pois foi aqui, sentado nesta lápide, que a vi naquele dia. Agora fico a escrever minhas memórias, fazendo com que os velhos dias se encontrem com os novos em uma foz de conceitos novos e idéias; por vezes boas e outras vezes não tão boas. E vou me permitindo, tal qual um artesão, a talhar a história aos meus olhos.

Não vou esperar todos os dias aqui até que ela volte, e nem sair em uma busca desenfreada por ela. Fico no lucro com a linda imagem de suas bochechas rosadas e seu cheiro de rosas, mas não seria ruim se de vez em quando, eu a visse no horizonte do meu passeio nesse fim de tarde de um outono frio e perfeito.

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