Arquivo para outubro \26\UTC 2010

Cadeado


O santo dele nunca falha, pois ele consegue se reciclar de tempos em tempos, e ser semrpe aquilo ali, na pura essência do bom humor.

Da taça dele, transborda poesia, fonte inesgotável de palavras sinceras e conselhos implícitos que ele dá a si mesmo, mas que atinge a todos a sua volta.

A mente dele é uma sala de aula, pois ao se reiventar a cada situação, ele aprende consigo mesmo, e nos ensina sempre algo novo e valioso.

O jeito dele, de poeta bon-vivant não é bonito e nem feio, pois não foi feito pra esse propósito. Ao invés disso, é descrito como genuinamente autêntico e de puro bom gosto, o que pra mim é o máximo e o mínimo a se esperar, se é que possa ter alguma espectativa sobre ele.

Uma de suas armas mais eficiêntes é a musica, que ilustra e dá vida à sua brilhante poesia.

A nossa amizade não é um conto de ações impressionantes. É um pedaço de duas vidas em um momento em que viajavam juntas ao longo de um determinado caminho com a mesma identidade de aspirações e sonhos e é isso que temos em comum, a nossa inquietude, nosso espírito sonhador e nosso incansável amor pela rota (Ernesto Guevara de La Serna, Notas de viaje, 1952).

Seja compondo músicas de madrugada, ou andando sem destino com um conhaque na mão, ali a gente se entende. Ali a gente compreende a nota que o maestro nos pedia. Ali a marcha entra no ritmo e enfrentamos juntos, como irmãos-de-armas, quaisquer moinhos de vento que por ventura cruzem nossa empreitada, e vamos a procura de nossa doce dulcinéia, que as vezes achamos ser aquela que nos espera em casa, pensando na gente, e às vezes temos certeza de que é ela mesmo.

Ele é um imperfeito, sem dúvidas; comete erros e acertos em demasia, mas mesmo assim, tem a capacidade de descobrir que pode ter acertado aonde errava, e ter errado aonde achou que pudesse estar certo.

Esse é ele, um pouco do que sou e muito do que é.

(para André Martins)

Tempestade

Fico aqui na sacada, observando a tempestade que vem vindo lá fora, e mais do que isso, observando as pessoas não obsevarem a tempestade lá fora. Tão ocupadas a recolherem as roupas do varal e fecharem as janelas como formigas, que nem notam o espetáculo de formas e cores que risca o céu na forma de raios, tão súbitos e intensos como a nossa própria vida, e como ela, se apagam em um clarão e vão embora tão rápido quanto vieram. Nesta sacada molhada pela chuva, fico a pensar se é implicancia minha, ou se realmente ninguém se importa, pois a busca pelo dinheiro e pelo conforto é tão importante, que se torna um fim em si próprio. Enquanto isso, a opera lá em cima vai tomando um tom dramático, como se aproximasse dos atos finais, e eu me senti um espectador de um grande baile no céu, pois os enquanto os trovões ditavam o ritmo, os raios corriam de um lado para o outro e para baixo, em um bonito tango celeste. Mas essas conversas são apenas devaneios de um maluco que gosta da chuva.
No outro dia, perguntei no meu trabalho: “vocês viram a chuva ontem”. O coro de desaprovação foi quase unanime, pois molhou a casa de um, o carro de outro, o cabelo de outra. mas lá no cantinho alguém disse: a chuva de ontem me fez dormir bem. Uma olhada furtiva e um sorriso me fizeram feliz, pois descobri que como eu, existe ainda algumas cigarras que apreciam a vida, e gostam de cantar na chuva.