Arquivo para setembro \14\UTC 2010

Xeque-mate

Ele tentou me convencer, me mostrar outro ponto de vista. Coisa de quem pensa demais. Já sabia que não era igual aos outros, pobres ovelhas do sistema. Então ele praguejava, gesticulava, descrevia uma teia de fatos. No fundo, eu sabia que não devia o levar a sério, mas ele continuava. Soltando em mim como bombas infinita variedade de falácias das quais pude identificar muito bem, mas não consigo agora nem lembrar os nomes. Tentou me mostrar o caminho que julgava ser a sua mais pura ideologia, sem ter êxito no final. Ele queria que eu seguisse a lei dos homens, alterasse o meu humor e o meu ponto de vista. Até minhas idiossincrasias estavam em jogo. Queria que eu me misturasse à massa urbana e fosse apenas mais um exemplo social. Queria que eu fosse como ele próprio.

No recôndito de minha mente, fraquejei e quase aceitei a sua proposta, mas sabia que na ruína de minha queda iria me sucumbir ao desespero, então busquei contra-argumentos para rechaçá-lo. Eu o encarei de queixo erguido, e por mais que não admitisse para mim mesmo, seu sorriso sarcástico de promessas fáceis era tentador.

Mas me lembrei qual era o caminho a que este poderoso ditador me guiava, e disse um “não” triunfante, e em um gesto final de desespero, ele usou sua última e mais poderosa arma: o vil algoz da honra, também conhecido como dinheiro. Em meio a imagens de luxúria e uma vida fácil, inspirei o ar em volta com paciência e o meu olhar oblíquo anunciou-lhe o golpe de misericórdia que estava por vir.

A minha mão esquerda segurava tudo o que ele me disse, enquanto a direita ia violentamente d encontro ao espelho, atingindo o meu reflexo inimigo em cheio e deixando em cacos a esperança que ele tinha, de um mundo de sonhos e utopia.

Ainda guardo as promessas dele em uma caixinha, para usar no dia em que destruírem tudo em que acredito,  tudo aquilo que luto para construir.