Arquivo para fevereiro \02\UTC 2010

Is just her, being naive

Ela parou pra pensar. Pensou na vida que levava e em como os anos a tinham tratado. Em sua mente, sua vida passou em tom de sephia como em um filme antigo. Ela viu seus pais lhe tratando com tanto carinho e amor, viu seu cachorro e viu a si mesma nas tardes de domingo brincando descalça. Relembrou daquela velha árvore que no outono, costumava cobria o chão da rua formando um tapete natural de cor avermelhada; quase como um protesto no meio daquele chão acinzentado.

Lembrou-se do colégio, dos vestidos rendados, da fita no cabelo e dos sapatos apertados. Uma boa infância para quem tinha tão pouco; afinal de contas, quem é normal precisa de muito pra ser feliz?

Lembrou-se também do velho pé de carambola no pátio que tinha na parte detrás da sua escola e do cheiro de café no fim da tarde, que anunciava o bolo de cenoura da vovó que tinha acabado de sair do forno.

Ela queria entender aonde tudo desandou e como ela mudou tanto, queria saber por que se engravidou tão cedo e porque começou a usar drogas. Em qual momento ela deixou o medo tomar conta, e sucumbiu-se à fraqueza?

Apesar da pouca idade, ela me olhava com olhos de quem já viu muita coisa. Seu rosto, sua postura e até seu jeito de falar revelavam a tristeza em cada esquina de sua juventude e em cada traço que seus passos desenhavam, um circulo melancólico se formava. Eu queria entender como a filha de um pai orgulhoso tornara-se uma garota amarga e mundana, cheia de ambições; vivendo um dia após o outro e sempre em becos sem saída. Seus vinte e poucos anos cobravam-na adrenalina intensamente e a ofuscavam a visão. Quisera ela que não fosse tarde demais, que não tivesse saído de casa; que não tivesse mudado de cidade e que não tivesse vivido nada daquilo, afinal todos queremos algum dia voltar atrás e fazer um novo começo.

Ela colocou a mão no rosto e chorou apena. Sentada naquele banco de praça, observando as crianças a brincarem, ela chorou com vontade e naquele choro, eu pude ver dez anos de agonia descendo junto com as lágrimas que contrastavam com aquele belo por do sol, desses que deixam tudo avermelhado. Passado um tempo, ela se levantou, pois sabia que estava já estava escurecendo e logo ela teria de trabalhar.

Alguns entendem que por mais que você siga um sonho, neste mundo cruel ele não vai se realizar, e pra ela, a noite era uma criança que precisava de amor; amor que ela oferecia sem pudor, e sem reservar um pouco pra si, por medo de se machucar outra vez.

Ela se levantou e foi embora resignada. Eu, por minha vez, fiquei ali sentado no banco da praça com as mãos no bolso da jaqueta, deixando meus pensamentos a sós e esperando o tempo passar.

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